segunda-feira, 8 de março de 2010

Uma pausa para lembrar a mulher




Hoje, ao acordar, resolvi dar uma olhada na televisão. Sei, não tem nada que preste, mas pelo menos ver alguma coisa. Então, deparei-me com um jornal falando sobre o dia 8 de março... Dia Internacional da Mulher. Hoje. E, curiosamente, algo despertou minha atenção.
Pela primeira vez em anos, vi alguém na televisão falando a origem do Dia Internacional da Mulher. Pouca gente sabe, mas em 1857, um grupo de tecelãs que lutavam por melhores condições de trabalho foram trancadas e queimadas vivas em uma fábrica. Por anos eu sabia deste fato, mas tive que aturar – inclusive colegas da área de educação – dizendo que o Dia Internacional da Mulher era apenas “uma simbólica homenagem escolhida ao acaso no mês de março para lembrar de todas as mulheres que, algum dia, deram sua vida por melhores condições”. A afirmação não deixa de ser verdadeira, mas omite o que aconteceu de fato e de direito.
Agora, mais irônico que tudo isso é saber que foram precisos 118 anos para que esta data fosse homologada. Foi preciso esperar a ONU tomar esta decisão em 1975. Foi preciso que outras tantas e tantas mulheres fossem queimadas, torturadas, estupradas, assassinadas, humilhadas na luta pelos seus direitos.
Remonta-me Germinal, do Émile Zola. As condições sub-humanas. A degradação existente. A mulher sendo exposta a uma condição bizarra e pouco efetiva em nossa sociedade. Penso em tudo isso quando invoco os 118 anos de ignorância plena com um evento que não só refere-se à mulher, mas ao trabalhador em geral.
Acho que agora entendo um pouco o Andy Warholl quando disse que “todos os seres humanos tem direito a quinze minutos de fama”. Um tempo efêmero, um simples quarto de hora em toda a sua existência – uns 73 anos? Mas foi preciso que estas mulheres esperassem 153 anos (pois é) para que, pela primeira vez numa televisão brasileira, chamassem a atenção do público.
Mas não parabenizo a televisão, ou o programa, ou a apresentadora, ou quem quer que seja. Fizeram mais que a obrigação, ainda que tardia. Demorou, mas aconteceu. Ou não?
Acho que os versos de Joyce na canção “Feminina” traduzem um pouco a idéia que a mulher carrega até os dias atuais: a sociedade vê a mulher como apenas um cabelo bonito, um olhar sedutor, um dengo, ser menina por todo lugar. Mas vem a grande questão: por que ser feminina? Será uma sina? Sou apenas um homem que tenta, muitas vezes, entender a alma feminina em sua completude. É misteriosa sim. Plenamente encantadora. Mas nenhum de nós pode negar sua existência e sua luta. Nem mesmo a violenta incineração de 118 tecelãs. Que precisaram esperar mais 118 anos para terem a sua luta reconhecida.
Mas a mulher não deve ser lembrada apenas uma vez ao ano. Tem que ser lembrada todos os dias. Mãe, esposa, filha, enfim... a mulher completamente, dentro da sociedade e em toda sua existência. Pela sua luta. Caetano diria que o homem não “pode querer que a mulher vá viver sem mentir”. Mas ela não precisa mentir. A história – ainda que encoberta – traça muito bem toda uma teia de verdades que foram omissas por milênios. É pena. Ninguém lembra de Creta. Berço da civilização ocidental, foi um dos poucos povos que permitia a mulher um papel decisivo no seu cotidiano. E antes de nós, seres civilizados, que precisamos esperar até 1975 depois de Cristo para deixarmos um dia em memória de todas as mulheres que morreram para serem inseridas na sociedade.
Portanto, não deixo aqui um “Feliz Dia da Mulher”. Deixo a lembrança de todas as mulheres que convivi, convivo e viveram, vivem e viverão neste mundo. Houve alguém que lutou por vocês. Não deixem o “me dá patinha” torná-las, novamente, uma visão subalterna do mundo.

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